Sobre a inspiração

04/05/2026

Gosto muito do tema INSPIRAÇÃO.

Sob minha ótica de escritora, ela me aparece e aparece em circunstâncias diversas: há muitas questões da vida prática para resolver? Estou cansada, doente, cheia de trabalhos, boletos, afazeres e preocupações? Ela some! Estou em um metrô lotado, cansada no trânsito, ou lidando com questões cotidianas? Ela desaparece!

Estou tranquila e sozinha, deitada na rede, vendo um filme? Ela me dá um oi. Estou caminhando na rua tranquilamente, sozinha, muito mais antenada ao meu universo interior do que ao exterior? Ela diz "psiu". Estou fazendo um trabalho chato, entediada, em uma aula pouco estimulante ou uma longa e tediosa reunião, ela me diz "opa, vem aqui!".

Em aulas chatas, rabiscar, desenhar e anotar ideias na parte final dos cadernos foi uma constante, tanto na adolescência quando na vida adulta. Reuniões chatas de trabalho, por Deus, já me renderam muitas ideias. Mantenho um semblante minimamente interessado, olhando para o interlocutor, mas o que se passa no interior do meu cérebro ele não adivinha: há mundos infinitos e grandes aventuras acontecendo em minha mente.

Recentemente, passei 10 dias na FLIPOÇOS. Estava em férias do meu trabalho formal, sozinha, em uma cidade pequena e um ambiente literário – e isso foi o suficiente para despertar novamente a minha inspiração e imaginação, que estavam havia cerca de dois meses meio adormecidas.

Caminhei por bancas de livros, folheei volumes diversos, li resenhas, observei títulos, apreciei ilustrações.

Ouvi mesas, palestras e diálogos de autores e estudiosos sobre vários assuntos: poesia, ecologia, política, economia, atualidades. Tive a oportunidade de conhecer histórias e autores que eu desconhecia e me interessar por histórias e assuntos que normalmente não estariam na minha lista de preferidos. Saboreei também conversas sobre autores que já eram de meu conhecimento e predileção, como Clarice Lispector e Jorge Amado.

Conferi conversas sobre clubes de livros e participei de uma reunião de um clube de escritores.

Todo esse conteúdo, aliado ao tempo que eu tinha para mim, em paz, com total liberdade, em um ambiente que propiciava a reflexão, a solitude e a imaginação e, nesse contexto, escrevi.

Apesar de nunca ter sido tímida e nem anti-social, desde criança tenho um apreço especial pelos momentos de solidão - hoje em dia, chamados de solitude.

Na escola, era sociável, participativa e envolvida em inúmeras atividades; no prédio, eu descia para brincar, fazer piqueniques, jogar vôlei e andar de bicicleta, mas sempre amei, mais do que tudo, os meus momentos em casa, com os meus lápis e papéis.

Quando eu ia viajar, não podiam faltar na mala: livros, lápis e papéis.

Eles eram a minha companhia para o tédio e os momentos de monotonia.

Tive a sorte de nascer antes do celular e dos streamings. Havia o tempo de brincadeiras, mas havia também o tédio, aquelas lacunas em que precisávamos inventar uma ocupação ou distração. E o tédio, pra mim, é um alimento incrível para a imaginação.

Eu já disse aqui que cada livro nasce de um jeito – às vezes surge uma frase ou um título ou um enredo. Alguns ficam "envelhecendo", como uma pinga em um tonel de carvalho, por meses ou mesmo anos. Uns nascem em demorado (e por vezes, doloroso) trabalho de parto – outros nascem rapidamente, de parto normal, sem aflição alguma.

E nesses dez dias me ocorreu de tudo um pouco: enredos para títulos que eu já tinha arquivados, uma história novinha em folha, inspirada pela belíssima paisagem das árvores da praça central da cidade, as quais apreciei por longas horas, sentada em seus bancos, protegida por sua sombra e apreciando as suas fontes, os transeuntes e o entorno, que dependendo da localização, contemplava uma bela imagem do Cristo Redentor abençoando a cidade.

Normalmente, escrevo no computador, mas, assim como Milton Hatoum comentou que escreve à mão até hoje, eu aprecio fazer as primeiras anotações sobre uma história ou um livro à mão, para não perder as ideias no momento em que elas surgem. Ando sempre com papéis e caneta na bolsa e tão logo surge uma inspiração, rapidamente faço as anotações iniciais à mão mesmo.

Nesse caso, passeando na praça e com papéis e canetas à disposição, retomei antigos títulos e escrevi escopos de histórias, bem como dois projetos de histórias ainda sem título e a historinha inspirada nas árvores da praça.

Agora, com anotações de sobra e tudo já devidamente organizado, minha tarefa é digitar e dar vida à elas, desenvolvendo os seus personagens e roteiros. E se dá uma certa ansiedade, tanto no sentido de escrever logo e descobrir logo o final de cada história, sinto uma energia incrível e uma alegria imensa por ter recuperado a inspiração que estava levemente adormecida. É sobre isso também: sobre ir se conhecendo e reconhecendo os fatores que adormecem ou despertam a sua inspiração, equilibrando, tanto quanto possível, a vida prática e real com as maravilhas da imaginação e da arte.


"O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário comose era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres.

(Rainer Maria Wilke - Cartas a um Jovem Poeta)











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