Muito além dos estandes: o que as crianças revelam sobre o futuro do livro na Bienal da Bahia

Estive na Bienal do Livro da Bahia no dia 17 de abril com uma expectativa bastante clara: encontrar estandes interessantes, assistir a algumas palestras e observar de perto o movimento do mercado editorial. Tudo isso estava lá — vibrante, diverso, pulsando - mas não foi exatamente isso que mais me marcou.
O que realmente me chamou a atenção foi outra coisa.
A programação da Bienal aconteceu entre os dias 15 e 21 de abril, no Centro de Convenções Salvador, sob o tema "Bahia: identidade que ecoa nos quatro cantos do mundo". O evento reuniu editoras, autores e instituições como a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), criando um ambiente potente de circulação intelectual.
No meio de tudo isso, havia um outro movimento acontecendo — um movimento vivo, estruturado, intencional - extremamente visível a todos os visitantes da feira.
Entre corredores cheios de livros, filas para autógrafos e mesas de debate, circulavam grupos e mais grupos de crianças vindas de escolas públicas. E não era algo pontual: cerca de 250 unidades escolares da rede estadual tinham visitas programadas ao longo dos dias 15, 16, 17 e 18.

Além disso, a Prefeitura de Salvador também garantiu a participação de estudantes da rede municipal, distribuindo vales-livro de R$ 40 para cerca de 10 mil alunos que visitaram o evento — enquanto professores tiveram acesso gratuito.
E isso fazia toda a diferença.
Porque aquelas crianças não estavam apenas olhando vitrines: elas podiam escolher. Podiam levar um livro para casa. Podiam transformar aquele encontro em continuidade.
Elas não estavam apenas passando. Estavam vivendo aquilo!
Foi nesse fluxo que encontrei um grupo de alunos do 5º ano da Escola Municipal Metodista Suzana Wesley, acompanhados pela professora Jozenite. Anny, Alice Maria, Marcos Felipe, Isabella, Akin, Amanda Vitória e Miguel Antonio — todos com 10 anos — circulavam pela feira com uma mistura de empolgação e estratégia.
Antes de comprar qualquer coisa com o vale-livro, pesquisavam preços: comparavam estandes, voltavam, pensavam. O gesto, simples à primeira vista, dizia muito: não era apenas consumo impulsivo — era escolha, decisão, construção de valor.

Alice Maria já estava na Bienal pela terceira vez. Marcos Felipe, pela segunda. Para os outros, tudo parecia ainda mais novo — e talvez por isso mesmo mais intenso.
Acompanhados da professora Jozenite, exploravam a feira com alegria e curiosidade. Marcos Felipe já havia comprado dois exemplares de O Pequeno Príncipe, enquanto Akin comemorava um livro de poesias autografado pelo autor — um tipo de encontro que dificilmente se esquece.
Quando perguntei como descreveriam a feira, as respostas vieram rápidas e diretas: "divertido", "legal", "poder comprar coisas". Simples — e absolutamente precisas.
Quando eu disse que era escritora, ficaram encantados. O brilho no olhar deles me comoveu: é para crianças que eu escrevo e aquele brilho dizia tudo: elas amam histórias e livros e acham incrível e curioso o encontro com um escritor.
Eles contaram que já têm o hábito de leitura na escola. E, quando perguntei o que mais chama a atenção ao se depararem com um livro, não hesitaram: "o título" e "a quarta capa, porque lá podemos ler um resumo sobre o livro".
A quarta capa.
Confesso que essa resposta me atravessou de um jeito especial. Há algo de muito potente em crianças de 10 anos nomeando, com naturalidade, partes do livro e, mais do que isso, demonstrando um olhar leitor já em formação — atento, curioso, crítico.
Fica aqui um reconhecimento necessário ao trabalho da professora Jozenite e dos demais professores da Escola Municipal Metodista Suzana Wesley. Porque aquele repertório não nasce por acaso.
Entre livros, massinhas e bottons, o entusiasmo era evidente. Mas não era só sobre ganhar algo ou levar um objeto para casa. Era sobre participar.
Com mochilas nas costas, olhos atentos e uma curiosidade sem cerimônia, seguiam explorando. Em muitos momentos, pareciam descobrir ali não só histórias, mas possibilidades. A Bienal, naquele instante, deixava de ser apenas um evento literário e se transformava em um território de encontro — e, sobretudo, de acesso.
Outro momento de muita doçura, com aquela espontaneidade que só as crianças podem ter, Marcos Felipe me indicou "olha, se precisar de um desenhista, esse aqui desenha muito bem!' - apontando para o Akin. Que incrível, até um ilustrador me indicaram na feira!
Em algumas conversas que tive ao longo do dia, esse movimento também apareceu. Entre organizadores, a presença massiva de escolas era vista como parte essencial do evento. Mais do que formar leitores, tratava-se de garantir que esses leitores se reconhecessem como parte desse universo.


Autores e editores, por sua vez, comentavam sobre o impacto direto desse contato. Muitos destacaram como o diálogo com crianças traz perguntas inesperadas, leituras próprias e uma relação com o livro menos mediada — mais direta, mais honesta.
Mas foi talvez no olhar das próprias crianças que essa experiência fez mais sentido.
Havia encantamento, sim — mas também pertencimento.
E isso não é pequeno.
Porque quando uma criança circula por uma feira literária desse porte, ela não está apenas consumindo cultura, ela está sendo convidada a ocupar um espaço que, por muito tempo, não foi pensado para ela. Está sendo autorizada, ainda que silenciosamente, a imaginar que aquele universo também lhe diz respeito. É ali, naquele momento, que ela vai se apaixonar pelos livros e saber que eles não são apenas objetos de conhecimento, mas podem também ser mágicos, lúdicos e divertidos.
Saí da Bienal com muitas anotações, ideias e referências. Mas, acima de tudo, saí com essa imagem insistente: a de leitores em formação exercendo, ali mesmo, o direito de escolher suas próprias histórias.
Talvez seja esse o futuro do livro — não apenas nos títulos lançados, mas nas mãos que começam, agora, a folheá-los.
